APRESENTAÇÃO

Ronie Charles trabalha na USP, é poeta e historiador. Jose Roberto é matemático e aposentado pela USP


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

LIVROS - III
Ronie Charles



Uma árvore morreu.
Ninguém se dá conta, mas,
Uma árvore morreu.

Dos homens foi ela cordeiro
Para nos redimir da ignorância,
Mas, nos tornamos faceiros,
Maliciosos, perdemos a inocência.

Cortaram-na e prensaram até fina folha;
O palpável e o impalpável aprisionado,
Em ato meritório, às vezes, vaidade tola,
Ali o mundo dos homens foi guardado.

Ao que se formou deram o nome de livro.
Uns são cheios de vida, outros, cemitério.
Uns interagem aos motivos porque vivo.
Outros são mortos, de grave despautério.
LIVROS – II
Ronie Charles



Na estante, os vejo como quem ocupa o pódio,
Ouço os incessantes murmúrios e interjeições,
De suas polifonias sentimentais de amor e ódio,
No eterno embate entre as razões e emoções.

Sentindo seus cheiros, os folheio com carinho;
Letras espremidas nas palavras que exprimem
Em orações complexas, devotas no pergaminho,
E, das aventuras e descobertas não me eximem.

Diferenciam-se por detalhes;
Finos, grossos, curtos, compridos,
Vistosos, rudes, simples,
Preto e brancos, pasteis, coloridos.

Entristece-me vê-los amontoados
Sem cumprir seus destinos,
Relegados às traças, empoeirados.
Pode haver maior desatino?

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Esta é uma obra de ficção. A história de um homem que já viveu 61 anos. E agora...

MAMÍFEROS PENSANTES
(Zé Roberto)

I

EPAMINONDAS



Entregava-se a especulações, sentado à mesa da cozinha, e sentia o agradável aroma do café recém-coado. “O ser humano é um mamífero que se diferencia dos demais por sua capacidade de pensar”. Epaminondas tomou consciência deste pensamento e se lembrou da primeira vez que ouvira este enunciado; foi quando ainda cursava o ensino médio. Ficou consciente, não somente de um pensamento, mas, de estar consciente.  Estava consciente de estar pensando sobre sua condição de ser pensante.
Era sem dúvida um avanço terapêutico. Epaminondas estava a ampliar seu autoconhecimento ao refletir sobre sua maneira de funcionar relacionada ao ato de pensar. Isso deve ter sido fruto de suas consultas ao Wikipédia sobre metaconsciência, onde leu que esta “é a consciência da atividade da mente”; “um estado ao qual se pode ascender por intermédio da associação entre a razão e profundos conhecimentos culturais, comportamentais, filosóficos, lógicos e entre outros mais ou menos relevantes”.
Às vezes as ideias vinham de um esforço reflexivo, mas, em muitas ocasiões, sem mais nem menos, sem pedir licença, elas arrombavam a porta e invadiam sua mente. Vinham se sabe lá de onde; alguns, bem assustadores. Para estes não dava prosseguimento, deixava que voltassem ao inconsciente, de onde nunca deveriam ter saído. “Melhor assim”, pensou.
Aquilatou que pensava o tempo todo e tinha opiniões sobre tudo: sobre o mundo, a natureza, os fatos, o comportamento das pessoas..., e que ficava imensamente contrariado quando tinha dificuldade de formular uma teoria ou um conceito. Aquilo ficava martelando em sua cabeça até que, por fim, alinhavava uma explicação.
Ruborizou ao tomar consciência de que na maioria das vezes buscava ornamentar suas teorias com explicações que proclamava como científicas. Envergonhou-se porque tinha que reconhecer que sua formação estava longe de qualifica-lo para tais habilidades e feitos. Sua incapacidade de suportar a angustia do não saber o obrigava a preencher cada pedacinho de sua cachola, fato que o acometia do mal da compulsão pelo pensar. Quando sua almejada mente científica o traia, se contentava com alinhavos carregados de senso comum e superstições.
Quando o transtorno por perseguir explicações às minúcias passou do simples desconforto para implicações maiores, chegou a cogitar da pratica da meditação tibetana, ou da zen budista, coisa que descartou ao se horrorizar com a informação de que essas abordagens pregavam a desaceleração da mente. Como poderia se livrar daquilo que constituía sua identidade, sua marca?
“Existem dois caminhos paralelos que, ao longo do tempo, vão tecendo a vida das pessoas. Um vai se estendendo dentro da própria cabeça. O outro se estende do lado de fora, quando há troca com os demais e interação com o mundo e a natureza. Esses dois caminhos interagem e se enriquecem”, pensou. Epaminondas ficou consciente desta ideia e também da tristeza que nasceu com ela; sentimento que apontava para a não atendida necessidade de relacionamento humano ao vivo e a cores e, não somente esse inodoro contato virtual das redes sociais, nem tampouco o do distanciamento dos personagens dos livros.
O casamento não resistiu ao seu jeito de ser e a esposa preferiu ir atrás de incertezas a continuar com o sabidamente frustrante.  As demais pessoas não toleravam sua conversa interminável sobre tantas coisas. Como suportar um sujeito que fica falando coisas sem sentido, sem pé nem cabeça? Pura inutilidade...
Sentia falta do contato físico, do toque, do abraço e do sexo, mas, o que mais lhe doía era não encontrar quem apreciasse trocar ideias, pensamentos, os achados que sua mente não cansava de garimpar. Seus afetos e sentimentos tinham grande apelo platônico embora convivesse com os dilemas da carne, as futilidades e trivialidades dos dramas cotidianos.
Dentre todos os mortais que passaram por sua vida apenas um se manteve próximo, e era seu único contato gratificante entre a multidão de almas com as quais cruzava nas raras vezes em que saia de casa. Desde o dia em que conheceu Gomes passou a ter um companheiro de diletantismo e se deleitavam em horas de conversa, que algumas vezes era feita caminhando, atividade que recebeu deles o apodo de caminhada peripatética, em homenagem a Aristóteles.
Enquanto passava manteiga numa torrada Epaminondas pensou que talvez devesse ir para sessões de psicanálise. “Um psicanalista me ajudaria com as associações de ideias”. Mas, logo começou a enumerar um rosário de obstáculos: “muito caro; falta de dinheiro; não preciso tanto; por enquanto, vamos deixar isso de lado”.
Por um momento, suas caraminholas amainaram e degustou do repasto matinal. O descanso de seus neurônios durou pouco. Logo abandonava o caminho de fora, que o ligava na relação com pão, a manteiga e o café e, já se embrenhava no caminho de dentro, o que era povoado pela multidão das ideias.
Então, levantou, espreguiçou, e se dirigiu ao computador. Começou a teclar: “Oi Gomes! Como tem passado, amigão? Espero ansioso seu retorno a essa mensagem. Precisamos urgentemente agendar uma caminhada peripatética. Abraços filosóficos! Epaminondas”!

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

EBRIÁTICA DANÇA DE ARLEQUIM
                                                             Ronie Charles


Uma ideia centelha vou completando
Com fantasias, adereços e quimeras
Coisas que sentem alguns insanos
Que embelezam o mundo e as eras
O espetáculo de um cometa no céu
Psicodélicas borboletas de um só dia
Coisas de sonhar minhas vontades
Não destas de que se fala em letargia
Vejo se abrir a linda flor dos sentidos
Saboreando do saber sobre mim
Pleno de graça me sinto ungido
Numa ebriática dança de arlequim
A brisa da existência traz o perfume da vida
E já não sou cego à vastidão dos encantos
Nem à sutileza, das sombras rarefeitas, bendita
Assim vou vivendo esquecido dos prantos
Comungo com as coisas e com chão que piso
Aprecio do dia a luz e o escuro da noite fria
Sorrio pra tristeza e choro de alegria

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O BEIJO MÁGICO

De repente, letra e música apareceram em minha mente. Mostrei a composição ao Adil Soul, percussionista e cantor. Adil Soul, para me fazer um agrado, coisa de amigos, solicitou ao músico Tarla que criasse os arranjos. Um dia, me enviou um vídeo, que fizera com seu celular, e que ora compartilho. Ao Adil Soul e Tarla, meu muito obrigado pelo generoso presente. 



sábado, 14 de novembro de 2015


a arca do futuro
Ronie Charles Ferreira de Andrade
O que não consigo guardar dentro de mim, eu ajunto;
Desde aparas, coisas desfeitas, a projetos jamais concebidos;
Recolho palavras, sentimentos, sementes incontroláveis colhidas no pensamento;
Recortes de papeis picados, fragmentos de sentidos, tudo guardo;
Guardo tudo muito bem na arca do futuro a ser a lançada ao infinito.

Essa arca é uma nave a deriva no oceano cósmico.
Essa nave é o poema épico, cheio de mistérios, portador da minha identidade,
Registro sólido de minha imaterialidade faceira, franca, despojada de medo,
Abandonada no vazio do espaço incompreendido,
Repleta de tudo o que foi esvaziado.

Escrevo do que sou e do que não sou, do que fui e do que jamais serei;
Escrevo das doces loucuras às fraquezas absolutas,
Da intransigência do destino às máximas consequências das escolhas fortuitas,
Da expressão do rosto que desafia a densidade do chumbo,
Dos medos e dos desejos calados,
Dos sonhos tranquilos e dos pesadelos atordoantes,
Das certezas e das improbabilidades.

Os versos viajarão nas profundidades do éter virtual,
Falando das virtudes e defeitos do nosso tempo, do nosso mundo, da nossa cultura;
Falando da virtualidade do eu em sua relação com todas as coisas e produtos.
É ou não, a poesia, uma máquina do tempo a levar o ontem e o agora para o futuro?

Penso nesses que me acompanham em minha jornada. Nesses que abraçam meu devaneio.
Para esses, eu, remetente, remotamente, remeto meus apreços e, da existência, o preço.
Procurando quem não sei, que leia e que me responda,

Que me diga que me viu, antes que o tempo que nos resta seja inútil.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O PARENTE MAIS PRÓXIMO
vídeo documentário
Região da Baixada em Ribeirão Preto


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

MAÇA DO AMOR
Ronie Charles Ferreira de Andrade



Perigoso doce, feito algodão,
Pelo calor da vida endurecido,
Em frágil lâmina de caramelo,
Precocemente da metade separado,
Como vidro fissurado corta.
Pretérito que perluz o amanhã
E torna o presente, o não vivido;
Essa loucura de precisão britânica,
De relógio suíço.
Massa enrijecida e aderente,
Desagrega tão fácil como se funde;
De fronteiras tênues e distantes,
De brilho apagado de preciosas pedras... brutas... inlapidáveis...
Alma de doce algodão,
Até queimar a garganta seca e sem palavras,
Na boca derrete enjoativamente,
Na noite escura dos sentidos dispersos,
A espera das respostas silenciosas
Da melancolia das coisas se desmanchando no tempo.
Eu e as coisas... os passos e a visão...
A velocidade e o que parou no tempo,
O caminho atravessado às pressas,
Meu ar endurecido pela ganância,
Meu sangue de vermelho mel,
Meu castelo de diábase e feldspato.
Meu chão açoitado pelo abandono,
Pedregoso e íngreme, tomado pelo verde musgo,
Como um diabetes toma a mente e faz delírio.
Gaiola de rocha dura o pensamento,
Prisão, masmorra,
Sonhando as ilusões do fantástico

Nesta maça aprisionada no melado.

sábado, 22 de agosto de 2015

LUGAR NENHUM
Ronie Charles Ferreira de Andrade


Sem ninguém, todos juntos,
Cada um em seu lugar,
Num estar não estando,
Se juntam, sem se unirem,
Neste nenhum lugar.

Se é em si, o encontro, a razão maior,
Distantes de se acharem estão os agrupados;
Trocam vírus na tosse coletiva
E na egoísta atitude violências e mágoas.

Queria o encontro pelo encontro,
Queria a troca,
Mas existe esse impenetrável e invisível muro,
Essa parede que erguemos com tijolos de agruras
E de dor mais fina.

Vez ou outra, uma voz se ouve a implorar,
Como um fantasma numa mente esquizofrênica:
_Alguém pode ascender a luz?
Silêncio!
Ausência de respostas.
Não há certezas, só achismos
E o burburinho indecifrável da multidão,
Onde as palavras trombam e se ignoram.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

      VIDA DELTA                               Ronie Charles


Neste momento, justamente agora, sou um delta
Doce salobre da mistura dos confrontos
Abraço entre o que já não é e o que será
Tantas coisas sendo no desfazer das essências
Tudo se transforma em nada e esse nada é tudo

domingo, 28 de setembro de 2014

O MUNDO DE DRAKE

Ronie Charles Ferreira de Andrade


A seringueira ferida verte lágrimas de leite látex
Como choram as poesias das emaranhadas vidas
Ao olharem para o espelho que se expande
Para caber o drama que estica feito borracha
Que permite que toda tensão sobre si deitada
Faça alçar posições para além do olhar imediato
Para ver nas entranhas da semente a frondosa árvore

Guardada no micro invólucro está a potência
Da vida circunstancial, dependente e carente
Genética que veio de um lugar de mistério
Revestida de casca... abrigo orgânico... esse difícil lugar
 Entre o vulnerável e a resistência necessária à proteção

Então, se relativizam limites e fronteiras
Abismos se tornam menores que a esperança
De que se pode transpor para muito além
Aquilo salta, voa, estica, liberta e depois cresce
Pois que o limite é instância; é provisório
E eis que, para além dele, o infinito surge
E no infinito as equações enlouquecem...
... as inequações explodem!

sábado, 20 de setembro de 2014

A AMPLITUDE DO RIDÍCULO E A MISÉRIA DO ESPÍRITO
Ronie Charles Ferreira de Andrade

Amplitude do ridículo e miséria do espírito de braços dados
Sobre os males da vida a amplitude do ridículo fala
Já a miséria do espírito segue vantagens contando
Viajam pelo mundo em balões, aviões, transatlânticos

Na mais profunda soberba
Da falsa sapiência dos arrotadores
De lixo de letras mortas
De massa fecal são feitos seus jarros
Como tudo o que os rodeia

O atirador de facas errou o alvo
A amplitude do ridículo se salvou
A miséria do espírito janta

E pelo mundo espalha seus flatos

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O ÚLTIMO LUME
Ronie Charles Ferreira de Andrade



Importa o que comigo se passa?
Importa o que eu diga ou o que faça?
Não importa o quanto em vão tenha andado
Vivo longe de tudo que havia sonhado

Do pesadelo na noite alta acordo suado e aflito
No mundo que bate as portas e o justo é esquecido
Luta a razão insana no suplício das paixões
Enche-se de branco o amanhã no vazio das multidões

A flor da igualdade não reparte seu perfume
Brota em campos distantes e escondidos
Onde a indiferença oprime as almas dos aflitos
E do último candeeiro apaga o último lume

O devaneio de uma utopia mascarada regurgita
A trama dos sonhos nas tranças da enfadonha dança
Desdenhando dos versos da poesia que a alma calou
Do amanhecer no mundo que a sombra tornou

terça-feira, 26 de agosto de 2014

NORMAIS ENFERMOS


Ronie Charles Ferreira de Andrade



Conflitos imediatos, futuros e passados
Esquizofrenicamente se debatem
Na prisão do momento
No lixo da mente equivocada
Na aflição da alma que degrada


A sociedade de consumo é viva
E consome a vida
E tudo transforma em pântano

Insensatez incapaz de reconhecer
A insolidez dos brejos
Onde afunda a razão
Onde apodrecem sentimentos

A pedra sucumbe por seu peso
À gravidade do que é mais grave
Neste universo de normais enfermos





segunda-feira, 11 de agosto de 2014

ESCURIDÃO

Ronie Charles Ferreira de Andrade

Coisas são imaginações reluzentes
O todo é só mais uma escuridão
Disfarçada por luzes aparentes
De estrelas na imensidão

Nas nuvens se desenham figuras
Que o vento desmancha no céu
Como a ilusão que na mente fulgura
E esconde a verdade com muitos véus

Quem displicente a fé contesta
Abre as portas para o nada
É oferenda na macabra festa

E tempestade colhe na madrugada

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

HIPNÓTICAS VEREDAS

Ronie Charles Ferreira de Andrade


Como devora a vida, a morte
És tu em teu atuar
Crês no garimpo de perolas
Enquanto vives a fanicar

Danças com lobos na sofreguidão das quimeras
E quando o sono vem, eles contigo oram
Mas, com a síncope das fábulas, as feras
Na realidade dos sonhos te devoram

Se por ventura de alguma sorte pudesses
A inquietude e a dor disfarçadas, sondar
As verias no colorido do engodo das benesses
E das burlas hipnotizando o ingênuo olhar

E talvez, antes do réquiem derradeiro
Quem sabe verias entre as sombras

O que te olhou tão verdadeiro

quarta-feira, 2 de julho de 2014

REDOMA

Ronie Charles Ferreira de Andrade


Inútil é o viver distante
Inseguro e prepotente
Onde o orgulho é rompante
E as penúrias tão eloquentes

O efêmero viver não submeterá o tempo
Nem a terra o desprezará chegado a hora
Receberá indiferente seu pó solto ao vento
A se dispersar na morna tarde que o sol cora

Ah! Como seria sublime se saísse dessa redoma
Estendendo a mão e tocando o outro que chama
Caminhando no novo como quem sai do coma
Da sedução das papoulas no ópio da trama

E nesse lugar novo que insistente o chama
Sair da autofagia e da comiseração
Pagar e receber com moedas de amor

Acumulando os tesouros na gratidão

domingo, 22 de junho de 2014

VOCE É PORQUE AMA

Jose Roberto Stella

 

“Você é porque ama e não pelo que ama você”. Essa é a frase que me marcou, no filme “Adaptação”, do diretor Spike Jonze.

Os irmãos Charlie Kaufman e Donald Kaufman, que assinam o roteiro do filme, criam uma trama onde eles mesmos se tornam personagens, e no entrelaçamento do que é real e do que é ficção desenvolve-se a reflexão da idéia Darwinista da adaptação. Para o homem pós-moderno surge como solução desenvolver e vivenciar seus sentimentos mais elevados como o amor, e não ficar preso na neurose e na repressão nascidas do medo de não ter controle sobre os sentimentos mais rebaixados como a raiva.

Parafraseando Descartes em seu “penso, logo existo”, os irmãos Kaufman anunciam: “amo, logo sou”, e dão uma espetada no racionalismo positivista.

O personagem diz algo como: “Nem aquela que amo imensamente tem o poder de me tirar o amor que sinto por ela”. O sentimento é meu, o sentimento sou eu. Lembrei-me do conceito de Ahimsa, a não-violência, do yoga: “Te amarei e te farei o bem independentemente do venha me fazer ou sentir por mim”. "O que me torna feliz é a capacidade de sentir amor, porque esse sentimento faz bem pra saúde do corpo e da alma".

Esse é o grande desafio adaptativo. Somos, ainda, frágeis seres que dependem de aprovação e admiração; somos narcísicos e egoístas; como vampiros, necessitamos desesperadamente nos alimentar do afeto do outro; como recém nascidos, nada temos a dar, só a receber. E assim, vagamos nas trevas, acumulando rancores e sofrimentos, jamais sentindo a bem aventurança da plenitude alegre do jorrar do sentimento amoroso.

Os atores do filme de 2003 são Nicolas Cage, Meryl Streep e Chris Cooper que levou a estatueta do Oscar para melhor ator coadjuvante.

O cartaz do filme também é muito sugestivo: um vaso de orquídea quebrado e tombado. O vaso é o rosto do personagem principal do filme, o roteirista que não consegue se adaptar ao mundo. Mas, como deve ser um bom filme, o final é feliz.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

ESSE ALGO
Ronie Charles Ferreira de Andrade

Algo há em mim que se formou
Do algo em mim que se perdeu
Algo que, de falar sobre, não sei
É algo que se diz sem estar dito
Que se sabe sem saber que sabe
É algo que não percebem os olhos
Está lá nas sombras da luz que sou

Definido na indefinida completude
Caminha comigo em um sentido
Em um sentimento, em um pensamento
Nos embates vividos no jogo constante
Das forças das vazantes dentro de mim

Entre tudo o que do lado de fora bate
E tudo o que do lado de dentro foge
No vão entre corpos que solitários dançam
Estão os sentidos dos meus sentidos
Abismo que me separa do que sei ignorando
Separa-me do fenômeno que antes de tudo somos

Separa-me do que sou em mim

sexta-feira, 13 de junho de 2014

COMO?
Jose Roberto Stella
 
Deepak Chopra em “Digestão Perfeita: a chave para uma vida equilibrada” diz que segundo a medicina indiana, conhecida como Ayurveda, a escolha correta dos alimentos e a criação de condições favoráveis para que ocorra o processo da digestão são determinantes para que haja um bom metabolismo, gerando um corpo saudável e muita energia, nos afastando das doenças.

Diferentemente da visão ocidental, a Ayurveda faz recomendações individualizadas do que, do quanto, do como, e do quando comer. Para isso ela nos ensina como reconhecer a constituição de cada um de nós, pois, cada pessoa é um ser totalmente distinto de todos os demais. Enquanto que para uma pessoa um alimento é saudável, para outra esse mesmo alimento pode ser extremamente prejudicial.

A Ayurveda faz orientações para que se processe uma boa digestão, como, por exemplo, indicando que as refeições sejam feitas em um ambiente tranquilo e harmonioso, as melhores horas do dia para se alimentar, o que comer nas diferentes estações do ano, e recomenda a escolha dos alimentos através do sabor. Preocupa-se tanto com as variáveis internas do organismo, como com as externas, pertencentes ao meio ambiente onde ele está inserido. Ainda, segundo Chopra, “o corpo humano é parte de um continuum natural, sendo um campo dinâmico de energia”.

David Frawley, em “Uma Visão Ayurvédica da Mente: a cura da consciência” diz que: “como uma entidade orgânica, a mente tem uma estrutura, um ciclo de nutrição, uma origem e um termo. A mente é também um tipo de corpo ou de organismo. Ela tem o seu metabolismo, seus alimentos saudáveis, seus elementos a serem eliminados e seus desequilíbrios, que podem ocorrer em virtude de seu funcionamento insatisfatório”. Considerando dessa forma, nós nos alimentamos não somente com alimentos físicos, constituídos de proteínas, carboidratos e gorduras, mas também, de emoções e de pensamentos.

Certas emoções e pensamentos são difíceis de serem digeridos. Sem metabolização coerente das emoções e pensamentos ocorre a geração de substâncias tóxicas, causando dor e sofrimento. A alimentação, digestão e metabolismo dos corpos físico, emocional e mental relacionam-se entre si, uma influenciando a outra. Intuitivamente sabemos disso, pois com frequência dizemos coisas como: “Aquela pessoa é intragável”. “Não digeri aquela ideia”.  “Seu amor me nutre”. “Ainda não metabolizei as emoções e sentimentos resultantes da nossa discussão”.

Percebe-se, assim, que o ser humano é um todo, com seus vários níveis interligando-se, um afetando o outro. Reforçando essa visão holística, Chopra diz que “o corpo é um sistema único, integrado, no qual, todas as partes estão projetadas para funcionar em harmonia”, e que, “o corpo humano é uma realização suprema da natureza e o desfrutar dessa dádiva requer certo grau de compreensão e de percepção bem consciente das necessidades dele”.

Paramahansa Yogananda diz, em um de seus escritos, que Deus nos deu a capacidade de desenvolvermos a habilidade do discernimento, da discriminação e a da força de vontade; o discernimento para discriminar entre o certo e o errado e a força de vontade para agirmos corretamente.

sábado, 7 de junho de 2014

IDEOGRAMA

Ronie Charles Ferreira de Andrade

 
Minhas ideias no rolar de meus mecanismos

Sigmas alados rodeando um sem fim em seus giros

Uma só palavra, tantos sentidos

Direções, esguios artifícios

Tudo está lá contido e nem mesmo a contingência de minhas emoções escapam

Faltam elementos, chaves que abram as portas da clausura de um termo

Há reboco demais escondendo a trama que junto ao tijolo jaz

Compreenda a extensão dos dilemas

Imagine a coerção de um anátema

Um bloco denso, analema de uma construção complexa

Onde a ordem convexa dos olhares se reflete sobre as côncavas paredes que aprisionam.

Planas palavras que as múltiplas formas do sentir e do que pensar não afagam

E que a aduana, da vida de quem se engana, taxa

Ideogramas, ideias, símbolos, totens,...

Mundos que se escondem nas teias que se entrelaçam

Que nada explica sem complicar o que é simples

Que nada expressa quando o código contido na poesia o insensível perde

Cada sentido que se liberta, a morte roubando leva, apenas para ser esquecido

Ignora a luz e a vida em sua antítese

E a síntese das trevas tece da vida a tese da morte

Que certa caminha ao encontro de nossa sorte

De fato, o que morre? Poesia ou Poeta?

Na rima que se definha

Na trama que envolve

Na clausura de um verso em chamas

Na angustia que sufoca

Letras de dor perdidas e inscritas na flor

Flor que não é uma rosa que só espinha

É espírito em ruína

É tempestade na alma

É loucura que não cessa

É virtude que se acaba

É noite que escurece

É pântano em que se afunda

É silêncio

Uma eterna dúvida cobra um sentido para uma frase, uma voz para uma palavra

Pois que um ideograma encerra um ponto entre muitos mundos

Eternidade de estrelas num prisma infinito e infecundo